Aprendizagem Transformadora

por | 25/04/2021 | Espaço do Leitor

Era a primeira vez que eu estava propondo um trabalho em dupla, a quem chamarei apenas de pessoa.  Achei que formávamos uma parceria perfeita, mas, senti seu desconforto quando me evitou, dando uma desculpa esfarrapada para cair fora. Sim, aquela pessoa a quem eu havia estendido a mão tantas vezes agora se esquivava de mim.

Seu desprezo bateu forte em meu ego – como pude acreditar que havia companheirismo entre nós? Senti a raiva subir pela face. Me senti usada por todas as vezes que ela recorreu a mim para resolver seus problemas. Tive vontade de botar para fora minha frustração e dizer na lata que, apesar de ela disfarçar, eu havia entendido. Mas calei, num silêncio frio. Ela percebeu que algo não tinha caído bem.  

Fiquei ruminando o assunto por dias e noites. Resmungava comigo mesma num desabafo de indignação. Bolava estratégias para revidar, pensava em cada palavra, cada frase que eu iria dizer. Mas não falei, segui muda. Estava machucada.  Não me aproximei mais da pessoa, embora frequentássemos os mesmos lugares. Ela tampouco.

Depois de semanas a raiva arrefeceu, comecei a refletir e percebi que, frequentemente, me decepcionava com as pessoas. Já tinha passado por situações semelhantes muitas vezes. Sempre acabava me sentindo traída e decepcionada com a atitude de colegas de trabalho, de aula, familiares e amigos. Todas as vezes que isso acontecia eu ficava ressentida e me afastava da pessoa.

Então, comecei a me questionar. Sempre procuro ser sincera e leal, por que não são assim também? Por que agem desta forma comigo? Será que as pessoas não ligam a mínima para mim? Serei eu o problema? Por quê? Fiquei muito tempo refletindo sobre tudo isso, desejava sinceramente compreender.

Mergulhada nesta autoanálise notei que eu costumava agir de uma certa maneira, uma espécie de comportamento padrão. Eu entrava de corpo e alma na relação de amizade ou de trabalho sendo o mais transparente possível e esperava que as pessoas retribuíssem da mesma maneira. Minha expectativa era de que agissem como eu agiria. No entanto, elas não retribuíam desta forma e eu me decepcionava muito por isso. Então, eu fazia questão de deixar claro para a pessoa o quanto estava desapontada e depois me afastava.

Analisei vários episódios semelhantes e percebi que era exatamente isso que sempre acontecia. Eu vinha repetindo esse comportamento ao longo da minha vida. Estava me tornando uma pessoa ressentida, pois, sempre ficava deprimida com o desfecho que invariavelmente ocorria. Parecia que eu acabava retornando sempre para o mesmo ponto, como se estivesse presa a uma âncora. Foram alguns meses pensando sobre essa âncora.

Decidi que não faria nada em relação a pessoa, não tomaria qualquer iniciativa, nem faria como antes. Não tentaria controlar nada nem consertar os desacertos, apenas me entregaria ao fluxo dos acontecimentos. Estava disposta a romper o círculo vicioso, pelo menos até eu compreender que processo era esse.

Então, me dei conta de que as pessoas não têm a obrigação de agir conforme eu espero. Elas têm seus próprios motivos para se comportarem da forma como se comportam. Eu, nem ninguém, tem a menor ideia do porquê agem desta ou daquela maneira, as vezes nem elas próprias têm essa consciência. Quando compreendi isso, foi libertador. Nesse momento “eureca”, encontrei a reposta, descobri o que estava buscando. A chave virou e revelou o que eu não enxergava. Tive a consciência de que era meu próprio comportamento que me aprisionava. Agora eu tinha em minhas mãos o poder para me libertar da armadilha que eu armava para mim mesma.

Surpreendentemente a decepção com aquela pessoa desapareceu, não havia mais razão para reagir ou falar sobre. Dali em diante agi de forma natural e espontânea, sem forçar qualquer comportamento. Pouco a pouco ela foi se sentindo confortável para a reaproximação. Nunca falamos nada sobre o que aconteceu, mas percebi que algo nela também havia mudado. Então, nasceu uma amizade fundada na não-obrigação. Tivemos a oportunidade de viver situações de cumplicidade e apoio mútuo. Hoje, anos depois, tenho muito carinho por ela e sei que a recíproca é verdadeira.

Aprendi com esta experiência que o tamanho da minha decepção é proporcional ao tamanho da minha expectativa. Sou eu e apenas eu que determino o quanto os outros podem me desapontar. Hoje, sigo em frente sem nutrir expectativas e faço isso conscientemente. Aprendi a conviver de uma forma leve e despretensiosa, não espero que as pessoas ajam assim ou assado. Se não compreendo, apenas aceito. Também aprendi que para expressar minha essência, preciso deixar as máscaras caírem, porque é nesse lugar profundo do eu que o verdadeiro encontro com outro acontece. Mas aí já é tema para outro texto.

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