Violência obstétrica Mulheres negras e o cenário obstétrico.

por | 23/07/2020 | Cultura e arte

Acredito ser necessário algumas definições para que nosso ponto de partida se torne justo e, ou no mínimo, compreendido como real recorrente e danoso de proporções imensuráveis abarcando esferas biopsicossociais do ser em questão. Para o Aurélio, mulher é o ser humano do sexo feminino, dotado de inteligência e linguagem articulada, bípede. Já preto/negro, “cor escura que se assemelha à cor do carvão, do asfalto. Indivíduo com a pele escura pelo excesso de pigmentação, como adjetivo seria falta completa de cor por não ser capaz de refletir a luz, preto. Cuja coloração é escura: quadros negros, manchas negras. Aviso de frase pejorativa segundo o dicionário ‘’Que anuncia adversidades ou infortúnios’’; funesto destino, aquele que carrega consigo desventuras e tragédias.”

Caminhando pela ‘’história’’ notamos que após Eva, Cam e outros, a mulher preta torna-se então objeto do objeto do homem, olhando através do monóculo, social ela se torna a base da pirâmide, violada, extirpada de sua terra natal, perde constantemente a família de antes e qualquer outra que ela possa ter sonhado em constituir, suas chagas são minimizadas, dessalgadas e desgraçadas.

Ainda sobre o tapete mágico do patriarcado, a viagem continua e quando se pensa em 349 anos de escravidão no Brasil (1539-1888), trezentos e trinta e oito anos de demonização, objetificação, estupro, mutilação, epistemicídio agressão e embranquecimento deste corpo. As ideias que antes construíram nosso pais, ainda hoje estão enraizadas em nossas entranhas, de tal forma que o corpo que casa com essa mulher, que atende essa mulher, que deveria zelar por essa mulher em escolas, unidades de saúde, legal e social, a desamparam com a justificativa de um possível diagnóstico “Síndrome de Riley-Day’’, mas sabemos que não!

Por que alguém tão impuro tão necessário para manter a pirâmide em pé não poderia herdar tal comorbidade. Ela é mesmo forte, bruta , sem dor, sem fome, sem saudade, sem humanidade e, como coisa, deve sempre agradecer ao senhorio ao invés de reclamar dos ‘’agrados’’ que recebe, sejam eles roupas em bom estado da patroa, caderno de desenho que o patrão não quer mais ou um pouco mais de analgesia no momento do parto, já que ela escolheu parir “ela que lute!’’, seria cômico se não fosse triste, essa frase nunca fez tanto sentido como agora.

Segundo o IPEA (Instituto de pesquisa Econômica Aplicada), que publicou o mapa da violência de 2019, temos: 4.936 mulheres assassinadas em 2017 – maior número em 10 anos, sendo 66% das vítimas mulheres pretas, em média de 13 mulheres por dia. No dia 13 de novembro de 2019 o informativo de desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil divulgou que a população negra tem 2,7 %mais chances de ser vítima de assassinato que os brancos (definição: assassínio ou assassinato é o ato de tirar a vida de outra pessoa intencionalmente e de forma ilegal), alguma relação com o momento do parto?.

Pensando nestes dados vamos adentrar em um dos locais que esta mulher preta acessa, que seria o cuidar de sua saúde biológica, já que para a psicológica temos hospitais especializados. Ela, em sua maioria, conhece os serviços de saúde quando esta grávida pois prevenção é para quem tem plano de saúde e ou trabalha meio período ou período algum para poder se consultar, vacinar, pois como a patroa vai cuidar do almoço? Como vai levar a criança na escola? Se ela estiver em consulta ou na espera da vacina e ela é forte, e sabemos! Não precisa disso! Mas, de volta ao derradeiro momento da consulta, o “dotô” já fica preocupado, assim como a equipe toda de saúde, pensando em quantas vacinas, exames, rotinas ela está atrasada, vamos então agendando tudo conforme as regras, normas e agendamentos, agendamentos estes que devem ser conversados com a patroa, no melhor dos mundos ela é ‘’quase da família’’ então está agora conhecendo seu tipo sanguíneo, suas IST’s (infecções sexualmente transmissíveis) e por fim uma lista de medidas profilácticas e curativas que ela entende, mas não muito bem, já que sabemos quem escolheu a gestação, “ela que lute!’’.

Então ela segue sendo mês a mês questionada e encurralada do porquê de coisas que ela nem sabia que existia ou que ela, tão forte e guerreira, como poderia contrair? Chegamos próximo ao dia da cesariana, já que é mais rápida e fácil para mulheres como ela, mulheres que tem responsabilidades. Sim sabemos, temos bolas e piscinas para o parto ‘’normal’’, mas também sabemos do medo da mulher preta de ser submetida a qualquer uma das situações citadas, “será que ficarei dias com dor?’’, “e meu bebê vai sofrer com isso?’’, ”minha vizinha disse que ficou 20 horas em trabalho de parto, sozinha por que não deixaram o acompanhante ficar , já que visita tem hora, ouvindo a equipe dizer que não nascia por que ela não queria a criança e quando sem forças foi encaminhada para sala cirúrgica sentiu dor durante a cesariana, pois gente de cor é forte’’, “menina, o meu corte lá em baixo infeccionou e eles cortaram a seco!’’.

A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Essa definição é dada pelos Estados da Venezuela e da Argentina, onde a violência obstétrica é tipificada (Defensoria do Estado SP). Já a OMS define a violência obstétrica como “uso intencional de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação”.

Falemos então de violência obstétrica, racismo institucional No Brasil, a cesariana é, atualmente, a via de nascimento mais comum e, portanto, normalizada dentro de nossa cultura. Ainda que a taxa nacional de cesarianas seja alta, é notório que o setor privado puxa a média para cima (88% ocorrem no setor privado). Contudo, o SUS também apresenta uma alta quantidade de cesarianas (cerca de 46%) segundo dados de 2019. Nesse cenário, mulheres que buscam a possibilidade de ter um parto por via vaginal enfrentam dificuldades e resistências na medida em que a possibilidade do parto normal tem sido simbolizada como algo antigo, atrasado ou mesmo perigoso.

As que se classificam como pretas apresentam maiores riscos de não receber anestesia local, quando realizada a episiotomia, relatam ausência de vínculo com a maternidade e que no pós-parto, são mais vulneráveis ao risco de infecção no sítio cirúrgico após a cesariana, agravo que tem íntima relação com a baixa qualidade dos cuidados puerperais. Quando se pensa em interseccionalidade, os eixos de discriminação gênero, raça e classe se cruzam e se sobrepõem, atingindo intima e ferozmente mulheres racializadas.

O olhar deve ser, “como agir?” e “como mudar?”, me atrevo a citar Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se’’, assim como para quem nasce negro, o tornar-se preto é doloroso, difícil, demorado porém necessário, urgente para que se conhecendo com humano a coisa intitulada de mulher preta e os demais possam saber de suas dores, anseios, história,medos e limites. Por isso sigo em conversas diárias para que as minhas possam saber de seus direitos e como argumentar, um dito Africano diz que para edificar uma criança é necessária uma vila, e a criança citada está caminhando, aprendendo a andar e precisa do seu quilombo, do seu povo que será com ela e por ela.

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